Um milagre em Paudalho

29 04 2010

O quê Gilberto Freyre, um dos maiores e mais influentes pensadores do século XX, e Aline Pereira, graduanda do curso de História da UFPE, têm em comum?

Além do óbvio interesse pelos estudos na área das humanidades, ambos tiveram o famoso Engenho Ramos, como parte de suas infâncias.

Aline nasceu e cresceu em Paudalho, ali, pertinho do engenho.

Sempre acompanhada de seu pai, que, como mercador, aproveitava as romarias e procissões para vender alguns produtos.

Visitava periodicamente o templo religioso do Engenho Ramos, onde um Severino, um cadáver milagroso, morava. O pai fechava negócios e ouvia causos. A filha contemplava tudo numa mistura de admiração e repúdio.

Hoje, anos mais tarde, Aline redescobriu sua infância, desta vez como objeto de pesquisa, com a ajuda da professora Sylvana Brandão, onde São Severino do Ramos é o tema central. Aline pode não ter se rendido aos milagres do santo de Paudalho, mas a presença constante da imagem em sua vida já pode ser contada como um dos pequenos milagres do São Severino.

1 – Por que São Severino do Ramos, e não São Severino dos Ramos?

São Severino do Ramos é chamado dessa forma devido ao local em que se encontrava  a imagem. Assim, as pessoas quando se referiam a ele, diziam é São Severino do  Engenho Ramos, logo tornou-se comum chamá-lo de  São Severino do Ramos. 

2 – Tendo nascido em Paudalho, ou seja, pertinho do Engenho Ramos, você poderia fazer uma breve análise de como este tema foi relevante em sua vida?

O Antigo Engenho Ramos esta localizado em Paudalho acerca de três quilômetros da minha casa e essa proximidade não é apenas física, mas acima de tudo emocional. Quando criança fui vários domingos ao santuário, mesmo indo por diversão presenciava as práticas dos romeiros, o que sempre me criou uma curiosidade. E, mesmo não as entendendo e até chegando a criticá-las, por eu ver nessas práticas devocionais uma forma pejorativa por me parecer um catolicismo arcaico e fanático. Contudo, atualmente enxergo essa jornada dos romeiros em busca do sagrado uma das expressões mais puras e singelas. Um fator que me aproximou do santuário, também foi o fato de meu pai desde jovem comercializar ou com antigos proprietários, ou com vendedores que comercializavam no santuário. Ele sempre teve o costume de conversar sobre hábitos e curiosidades em torno da imagem, tanto que alguns episódios os quais sei foi a partir de seus relatos. Essa proximidade me deu uma abertura com romeiros, moradores de Paudalho e antigos funcionários do engenho, assim me são possibilitados uma alta gama de relatos. 

3 – O turismo religioso é um grande motor econômico para cidades como Juazeiro. Discorra um pouco sobre esta afirmação utilizando o exemplo de Paudalho.

A romaria feita a São Severino do Ramos não é só um momento de comunhão entre o devoto e o Santo, mas também é uma forma de diversão e turismo para os participantes.       A ida ao santuário para alguns é uma forma de lazer, esses visitantes veem nessa jornada a possibilidade de diversão a partir da interação com os elementos profanos.  Entretanto, mesmo estes visitantes não se veem como turistas, mas sim como romeiros. O termo “turismo religioso” é utilizado no contexto político-administrativo institucional, o qual tem claro interesse econômico no Santuário e percebe neste espaço possibilidades reais dentro do contexto turístico. Diferente de outras áreas religiosas, como Juazeiro, os visitantes do santuário de São Severino do Ramos não ficam no local por mais de um dia, devido a falta de uma estrutura turística, e  essa é uma questão que está sendo muito discutida na atualidade.  O Santuário encontra-se dentro de um território particular e isso cria uma disputa em torno de seu controle.  O poder público procura uma forma de desapropriar e, por conseguinte tombá-lo como Patrimônio Cultural, enquanto os proprietários alegam possuir laços emocionais que não podem ser desfeitos.

4 – Diferentes abordagens e mitos surgem sobre quem foi aquele santo local, assim como novos milagres e narrativas diversas dão toques místicos a vida e aos poderes post-mortem daquela entidade. Levando em conta que São Severino do Ramos não é um santo oficial, ou sequer existe qualquer informação oficial sobre sua vida, como a imagem se tornou tão poderosa e representativa dentro do imaginário popular?

 

De acordo com a tradição oral, o santo milagroso teria sido trazido da Europa, como presente de um sacerdote a sua mãe, antiga proprietária do engenho. Desta forma, espalha-se a notícia na cidade que, no Engenho Ramos, jazia um cadáver milagreiro dentro de um caixão, levando assim pessoas à capela, a procura de seus poderes.

O homem se vê limitado diante do mundo, procurando colocar valor no sobrenatural. Acredita-se que este, por sua vez, facilitará sua vida. Quando o homem elege uma imagem como santa, é dado um valor de cura, de realização de milagres. Porém, existe uma troca entre o devoto e o santo. O devoto, quando recebe sua graça, cria uma conexão com seu protetor e quanto mais receber, mais acreditará na imagem; passando para outras pessoas que aquela imagem tem poderes e, consequentemente, o santo ganhará mais devotos. Ainda que não tendo sido canonizado pela hierarquia clerical, São Severino do Ramos já o foi pelas gentes de Paudalho, de Pernambuco bem como do Nordeste brasileiro. As devoções católicas no Brasil quase sempre nascem de forma espontânea, e com o seu ulterior crescimento, a Igreja Católica tenta disciplinar tais devoções e isto é observado em torno de São Severino do Ramos

5 – Como um santo dialoga com a realidade da população, através de seu nome, Severino?

Há várias possibilidades de fazermos essa analogia, porém eu entendo ser muito interessante fazê-la a partir do poema “Morte Vida Severina” de João Cabral de Melo Neto. Logo no início do poema o retirante quando se apresenta o faz da seguinte maneira:

— O meu nome é Severino,
como não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria.
 Posteriomente, o retirante elucida sobre os tantos Severinos: “Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
 

São Severino é mais um Severino sem identidade e origem, como tantos Severinos que formam o Brasil. Os romeiros elegeram São Severino do Ramos como seu protetor, como o herói que irá protegê-los de todos os males. Como elucidou Duby, “os mártires são em certa medida os sucessores dos heróis e, como estes, possuem uma coragem exemplar”. Nessa perspectiva o sertanejo identifica-se com o Santo por enxerga nele um guerreiro como ele próprio, ambos lutam a cada dia por sua sobrevivência.





Diálogos III…

15 04 2010

MUSEU DE ARTE POPULAR CONVIDA

 

O Museu de Arte Popular, vinculado à Fundação de Cultura da Cidade do Recife,  promoverá o terceiro encontro da série Caminhos do santo | Diálogos…, tendo como ponto de partida os assuntos suscitados na mostra Caminhos do santo, inaugurada no dia 21 de Dezembro de 2009.

Reconhecendo e afirmando o museu como um espaço de formação, colaboração e difusão de saberes, o museu apresentará neste terceiro encontro três trabalhos em construção, visando a divulgação, e ao mesmo tempo, o debate das idéias daqueles que trabalham a religiosidade e a cultura popular de Pernambuco e do Nordeste.

No dia 22 de Abril, às 19 horas, teremos: Caminhos do Santo | Diálogos III…peregrinações e cotidianos da fé: um beato, um santo e o homem. A palestra contará com a presença da pesquisadora Priscilla Quirino, mestranda em História na UFPE, que pesquisa a vida e o legado de Cícero José Farias , o Meu Rei, importante líder messiânico nordestino, fundador de uma seita(um beato). Também teremos Aline Pereira, integrante do grupo de pesquisa “História e Religiões” do CNPq/UFPE, que trabalha com a história do Engenho Ramos e toda a sua influência na política e religiosidade local, fundamentada no São Severino dos Ramos (um santo). E, ainda, o pesquisador Márcio Luna, Especialista em História do século XX, pela UFPE, que falará sobre a religiosidade no cotidiano do homem sertanejo a partir de seus estudos sobre  Luiz Gonzaga e o mundo que o cercou (o homem).

O que | Caminhos do santo | Diálogos III…peregrinações e cotidianos da fé: um beato, um santo e o homem.

Quando | 22 de Abril de 2010, quinta-feira, às 19 horas.

Onde | Auditório da Livraria Cultura, Bairro do Recife

Promoção | Museu de Arte Popular – MAP

Quanto | Grátis

Informações | 3232-2803 / 3232-2969

educativomap@hotmail.com   |  museudeartepopular@hotmail.com  |  

http://museudeartepopular.wordpress.com/

Serão emitidos certificados aos ouvintes

 

 

 

Márcio Luna | Especialista em História do Século XX pela UFPE, com pesquisa monográfica intitulada: (SER)TÃO NORDESTINO: A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE CULTURAL A PARTIR DA OBRA DISCOGRAFICA DO REI DO BAIÃO (1945-1956).Graduado em História pela UNICAP. Atualmente se debruça acerca das representações do Sertão Nordestino na música de Luiz Gonzaga, e desenvolve ações Educativas do Memorial Luiz Gonzaga.

Aline Pereira de Araújo | História, UFPE; Integrante dos Grupos de Pesquisa “História e Religiões”, do CNPq/UFPE, e “Gestão Pública e Espaços Público: conflitos e intolerância religiosa”, do MPANE/UFPE; Docente da Rede Estadual de Pernambuco;

Priscilla Pinheiro Quirino | Mestranda em História do Norte e Nordeste do Programa de Pós-Graduação da UFPE; formada pela UFPE como Bacharel em História. Linhas de Pesquisa: Religião e Religiosidades e Gestão Pública e Espaços Públicos: conflitos e intolerâncias. Faz parte do projeto de pesquisa “Gestão Pública e Espaços Públicos”, formado por uma equipe multidisciplinar dos mestrados de Gestão Pública da UFPE, de Ciências das Religiões da UFPB e de Ciências da Religião da UNICAP.

Coordenação de Mesa

Filipe Daniel Barreto |  Ciências Sociais, UFRPE.

Realização | Museu de Arte Popular

Apoio | Livraria Cultura








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