Teia de Cordéis | Diálogos IV… Mulheres em cantos e versos

12 09 2011

Teia de Cordéis | Diálogos IV… Mulheres em cantos e versos

a mulher, o gênero e o feminino

A literatura brasileira, seja na esfera denominada “erudita” ou “popular”, fora marcada, ao longo dos anos, pelo traço patriarcal de sua sociedade. O monopólio masculino construíra representações sobre o gênero feminino que ora denegriam sua imagem, ora vetavam seu acesso ao consumo e produção literária.

A Prefeitura do Recife, por meio do Museu de Arte Popular – MAP, equipamento da Fundação de Cultura Cidade do Recife, convida a todos para uma boa conversa com a pesquisadora Ângela Grillo (História/UFRPE) e as cordelistas Susana Morais e Mariane Bígio sobre a trajetória feminina na Literatura de Cordel nacional e suas técnicas para driblar o machismo e a (in)visibilidade social, antecipando a 5º Primavera dos Museus, sob o tema Mulheres, Museus e Memórias.

Dia 14, Quarta-feira, no CCCR

O que | Teia de Cordéis | Diálogos IV… Mulheres em Cantos e Versos

Quando |14 de setembro, quarta-feira, às 19h

Onde | Centro Cultural  Correios

Av. Marquês de Olinda, 262, Bairro do Recife – Próximo a praça do Marco Zero

Informações | +55 81. 3355-3110

Susana Morais | Poeta cordelista, oficineira de poesia popular, recitadora. Graduada em História pela Universidade de Pernambuco. Integrante e uma das fundadoras da Unicordel – União dos Cordelistas de Pernambuco. Integrante do grupo Vozes Femininas, composto por Cida Pedrosa, Mariane Bigio e Silvana Menezes, que se apresenta de forma profissional em vários eventos no Recife e outras cidades de Pernambuco. É autora dos cordéis “Presença Feminina na vida e obra do Rei do Baião”, “Sombras do Cangaço ou A Versão de Maria Bonita”, entre outros.

Mariane Bígio | Formada em Comunicação Social, com habilitação em Rádio e TV na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Locutora, repórter, produtora, montadora e diretora, poeta e declamadora no grupo Vozes Femininas. Membro da UNICORDEL (União dos Cordelistas de Pernambuco). Em 2009, dirigiu e montou o videopoema experimental Corpo Urb que trata sobre os conflitos interiores de uma mulher angustiada frente a sua “urbe” caotizada.

Angela Grillo | Doutora em História pela Universidade Federal Fluminense e École des Hautes Études em Sciences Sociales em Paris, França. Professora da Universidade Federal Rural de Pernambuco atuando na Graduação, Especialização e no Mestrado de História. Pesquisadora na área de História Cultural, História das Mulheres, Cultura Popular e Literatura de Cordel. É autora de trabalhos como “A Arte do Povo: histórias na literatura do cordel (1900/1940)”, “Evas ou Marias? As mulheres na literatura de cordel: preconceitos e estereótipos”, entre outros.
 

REALIZAÇÃO

   

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O mundo envelheceu?

25 05 2010

Houve um tempo em que o pensamento dominante ocidental considerava os mais velhos como indivíduos obsoletos, antigos e antiquados. Eram tidos como um grupo de pessoas para quem não valia mais a pena manter expectativas, afinal, estariam tão próximos da reta final do percurso da vida, que nutrir por eles qualquer anseio, era desperdiçar tempo olhando para um passado irrelevante e sem brilho.

Melhoras no sistema de saúde, surgimento da biotecnologia, novas descobertas no campo da genética e melhorias econômicas e sociais fizeram com que a expectativa de vida aumentasse e a população mundial “envelhecesse”. A dita “terceira idade” ganhou visibilidade e passou a ser discutida nas academias e órgãos governamentais. Era chegada a hora de se pensar em uma sociedade que valorizasse os idosos.

Para isso, buscou-se nas sociedades milenares orientais a sabedoria de respeitar os mais velhos e concebê-los como guardiões de saberes tradicionais, materialização do passado e elos cronológicos. É nesta perspectiva, que ainda nas comemorações da 8° Semana Nacional de Museus, o Museu de Arte Popular – MAP, abriu suas portas ao público de idosos da Diretoria de Lazer e Cidadania da Prefeitura de Recife, que na maioria dos casos, pela primeira vez, adentraram um espaço museal e se encantaram com as obras plásticas da cultura popular.

Ao entardecer, por volta das 16horas, como culminância das atividades da semana, o MAP e o MLG promoveram o debate “Acessibilidade em Museus” no Teatro Hermilo Borba Filho com a presença de gestores de instituições públicas, ong´s e militantes do Movimento Negro. Os presentes discutiram ações efetivas de inclusão social e física junto a públicos habitualmente cerceados, tais quais: pessoas com deficiência e grupos de vulnerabilidade social.

Confira abaixo as fotos!





Alice no País dos Cordéis

6 05 2010

 

      Um dia, uma criança seguiu um coelho branco, um coelho de louça, que a levou até um portal. Ao atravessar o portal, num passe de mágica, o coelho se tornou uma poesia enquanto a criança, numa transmutação não menos poderosa, se tornava adolescente, e foi aí que esta criança, chamada Alice, encontrou a Literatura de Cordel.

      O cordel, que tem sua origem na Península Ibérica, fortemente influenciado pela poética árabe, é parte da identidade do Nordeste brasileiro e só assim podemos entender, como uma criança baiana, que morava em Pernambuco, foi entrar em contato com esta expressão artística pelo intermédio de uma professora cearense. O cordel se tornou, também, parte da identidade de Maria Alice Rocha Amorim.

      Formada em Psicologia, em Jornalismo e com mestrado em Comunicação e Semiótica, Maria Alice encontrou, na literatura de cordel, seu objeto de estudo e uma grande paixão. Nesta entrevista, Maria Alice se apresenta, e introduz algumas das questões que foram discutidas ontem, dia 05 de Maio, no Auditório da Livraria Cultura.

 

 

 

1 – Maria Alice, como e onde surgiu este seu amor pela literatura de cordel e pela Arte Popular?

 

Desde a adolescência, apreciava ouvir uma professora, que era cearense, falar sobre literatura de cordel. E ainda criança, adorava brincar com miniaturas de louça de barro. Isso poderia ter sido apenas um passatempo momentâneo, mas, não, firmou-se como prazeroso objeto de estudos a partir da época em que vim estudar no Recife, entre o final dos anos 70 e início dos 80. Depois, morei dez anos em Nazaré da Mata e lá passei a freqüentar sambadas e ensaios dos mestres de maracatu. A arte dos ceramistas de Tracunhaém, Goiana, Caruaru sempre me tocava, além de adorar o convívio com as artes dos cordelistas xilógrafos, como Marcelo Soares, Dila e Costa Leite.

2 – Sua dissertação de mestrado, No visgo do improviso ou A peleja virtual entre cibercultura e tradição, trata do advento da informática como um meio de propagação da literatura de cordel. Diante da pesquisa que foi desenvolvida, como esta e outras tecnologias interferem nas tradições de cordelistas e de outros artistas populares, seja de maneira positiva, ou de maneira danosa? Como você analisaria o papel das tecnologias na preservação das tradições?

 

As tecnologias acompanham o homem desde os primórdios. Quando se fala de tradição, uma das recorrências é supor que as duas – tecnologia e tradição – são incompatíveis. Mas, o cordel feito com a mediação de ferramentas do mundo cibernético prova o contrário. Isso, apenas citando a experiência cordelística, e a mais recente. Claro que as tradições não são estáticas, há interação contínua com o contemporâneo e esse diálogo garante a vitalidade. Evidente que o poeta cordelista não tem mais o perfil sociológico de um poeta de início ou meados do século 20. O cordel é identificado por aspectos de um fazer tradicional, obviamente, e é feito, hoje, por contemporâneos nossos. E, bom que se diga, foi exatamente a partir do boom das comunicações e facilidades oferecidas pelo computador e pela internet, a partir do final dos anos 90, que a produção cordelística retomou o fôlego. Os cordelistas se comunicam em rede, produzem e publicam com auxílio da rede, criam novas formas de produção poética, como as pelejas (de improviso ou não) no msn, twitter, nos blogs, correio eletrônico, telefone celular. Preservação, para mim, é isso, deixar o cordel viver, sem ficar lamentado que o cordel bom era somente aquele feito no passado.

3 – Em seu texto, O Verbo Sedutor, você fala de como a poética improvisada do mestre de maracatu rural reaviva tradições que remetem até aos poetas medievais. Esta ligação histórica tão antiga não é exceção na arte popular nordestina, pois o cordel teria sua origem na península ibérica, com forte influência árabe. Diante deste passado tão iluminado, que se reflete em um presente rico culturalmente, por que ainda existe tanto preconceito de alguns eruditos e intelectuais com estas (e outras) manifestações?

 

As tradicionais poéticas de oralidade estão inscritas num grande universo, que Jerusa Pires Ferreira chama de “grande texto oral”, portanto, improviso de maracatu dialoga com violeiros, coquistas, cordelistas. E isto é muito rico, como escreve, por exemplo, Augusto de Campos, num ensaio em Verso, Reverso e Controverso, em que relaciona a linguagem poética de violeiros nordestinos e poetas provençais. Há grandes textos, grandes pesquisadores que se debruçam sobre estas expressões de cultura. O preconceito, quando há, sai do âmbito meramente das preferências, fazendo vislumbrar questões ideológicas.

4 – O artista Mestre Noza, nascido em Taquaritinga do Norte (PE), mas que ainda jovem peregrinou até Juazeiro do Norte (CE), teve uma forte ligação com o Padre Cícero. Esta relação começava na fé, e ia até a sua arte, onde as figuras do Padim representavam uma parcela importante do trabalho do artista. Segundo o próprio Noza (Reinado da Lua, 2009), ele teria levado a primeira imagem ao Padre Cícero, que teria rido e perguntado “Eu sou assim?”. Levando em conta o exemplo de Mestre Noza com o Padre Cícero, nos cordéis, como esta figura, Padre Cícero, é retratada? São múltiplas interpretações? E, por fim, teriam estas interpretações, relação direta com o contexto da produção?

 

Existe uma unanimidade: o mito. Louvado como santo, o Padre Cícero também é expurgado por cordelistas que o consideram “santo das oligarquias”. Mas, nenhum contesta que tenha sido um homem inteligente, carismático. Milenarismo e messianismo são aspectos recorrentes nos cordéis sobre o Padim Ciço. E, com certeza, por ser um filão comercial, muitos dos poetas escrevem conforme o público das romarias. Afinal, dessa forma o folheto será bem vendido.

5 – Você gosta de Juazeiro (BA) e adora Petrolina (PE)?

 

Amo Juazeiro e Petrolina. Lá está a minha infância e as duas carrego sempre comigo. Agora, Recife e Nazaré da Mata foram decisivos quanto ao que venho pesquisando sobre culturas tradicionais, principalmente as poéticas de oralidade.

Maria Alice Amorim | Natural de Juazeiro, Bahia, cresceu em Petrolina, Pernambuco. Vive no Recife, onde exerce o jornalismo especializado em reportagens culturais, colaborando em revistas e suplementos, e realizando conferências. Dedica especial atenção à poesia popular, à arte figurativa e aos folguedos populares. Da fusão desses temas surgiu o livro Carnaval – cortejos e improvisos (2002), em co-autoria com o pesquisador Roberto Benjamin. Publicou, em 2003, ensaio sobre arte popular na obra Pernambuco: cinco décadas de arte. É autora do ensaio Improviso: tradição poética da oralidade, que integra o livro Literatura e Música, co-edição do Itaú Cultural e editora Senac. Com pesquisa sobre as poéticas tradicionais do Nordeste brasileiro, defendeu dissertação de mestrado em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) –  “No visgo do improviso ou A peleja virtual entre cibercultura e tradição” – , que saiu em 2009 pela Educ (PUC-SP).





Uma fotografia do Marcelo

4 05 2010

Marcelo Feitosa é carioca. Pernambucano por parte de mãe, aprendeu cedo o sabor e o calor da cidade do Recife, e por aqui resolveu ficar. Multifacetado e cosmopolita se abriga em duas profissões, ora preocupa-se com sua microempresa, ora se deleita em seus ensaios fotográficos, ainda dividindo-se entre Recife e Curitiba, terra de sua namorada. Fotógrafo autodidata com especialização em fotografia digital, enveredou pelo caminho de cristalizar momentos em fotos artísticas e documentais, tendo assim, participado e ganhado vários prêmios na área. Em seu mais recente trabalho, “Festa Santa”, este fotógrafo que descobre Recife e agora Recife o descobre, presenteia a todos com um paralelo entre dois locais votivos (Juazeiro do Norte – CE e Morro da Conceição – PE), fazendo -com isso- um retrato da fé e dos aspectos comportamentais dos romeiros de ambos os locais de peregrinação. Sua preferência por uma estética de imagem em preto e branco, torna seus clicks atemporais e desafia a cronologia dos próprios fatos retratados, além de possibilitar uma observação serena e tranqüila, que abre caminhos para olhares e interpretações múltiplas. Como pequenos ensaios dentro de uma grande imagem, suas fotos são ricas e parecem correr para um infinito de sensações, histórias e experiências.

Confira abaixo a entrevista deste grande profissional, que tem seu trabalho(Festa Santa) exposto na atual exposição do MAP “ Caminhos do santo”. Você está esperando o quê para conferir?

ENTREVISTA

1. Por que o interesse em trabalhar a religiosidade popular?

Procissões e romarias guardam nossas origens cristãs. Os portugueses devotos, nossos colonizadores, interessados na difusão da fé, nos legaram um calendário repleto de datas santas. A religiosidade é uma herança cultural fortemente presente no cotidiano do povo brasileiro, principalmente do povo nordestino. Meu interesse com esse trabalho foi buscar a compreensão de como essa herança influencia a vida desse povo e como ela é determinante na caracterização dos hábitos e costumes, não apenas do sertanejo, mas de todo o povo nordestino.

2. Qual a estética utilizada em seu trabalho?

Optei por realizar as fotografias em preto & branco por achar que seria a melhor maneira de retratar a dramaticidade das imagens. Além disso, resolvi “envelhecer” as fotos usando um tom amarelado durante o processo de edição. Minha intenção é passar a idéia de atemporalidade das cenas.

3. Há no Nordeste um grande número de locais votivos. Por que a preferência por trabalhar Juazeiro do Norte e Morro da Conceição?

Festa Santa é um estudo comparativo. Escolhi esses locais por estarem em regiões distintas e serem antagônicos. Juazeiro do Norte fica no sertão cearense, o que caracteriza uma romaria rural; já o  Morro da Conceição fica na região metropolitana da cidade do Recife, caracterizando uma romaria urbana. A proposta do projeto é fazer uma análise comportamental dos devotos nas duas romarias e observar as diferenças e, ou, semelhanças existentes entre elas.

4. Seu trabalho parece configurar um retrato da fé de dois locais votivos que ora dialogam e ora se repelem. Nesta concepção, quais seriam os aspectos de semelhança e também os de singularidade entre Juazeiro e o Morro?

Meu trabalho consiste em lançar um olhar sobre tudo o que acontece nas romarias desses dois grandes centros votivos, buscando compreender, não só a fé, mas também a relação de interação entre romeiro e romaria. Devemos pensar em romaria como sendo um grande evento festivo. A fé que motiva os peregrinos em suas devoções é a mesma que os faz transformar a romaria em um momento de lazer. Quanto às semelhanças e diferenças entre Juazeiro e o Morro da Conceição, fica claro que os símbolos de devoção são praticamente os mesmos nas duas regiões, com cenas de pagamento de promessas, devoção, filantropia e orações sendo uma constante nos dois locais. A principal diferença entre as duas festas é o aspecto comportamental dos devotos: enquanto em Juazeiro os fiéis geralmente cumprem todo o calendário festivo, em peregrinações que duram dias, no Morro da Conceição os devotos limitam-se, geralmente, a pagar suas promessas e fazerem suas orações, numa única visita ao local de devoção.

5. As pesquisas referentes ao Padre Cícero revelam um homem de múltiplos interesses e muitos deles não correspondentes a uma figura religiosa. Através de suas pesquisas, como você percebe e retrata a figura deste mito nordestino?

Baseado em minhas pesquisas, entendo a figura do Padre Cícero como sendo a de um homem profundamente comprometido com questões sociais, além das religiosas. Proibido de exercer suas funções sacerdotais devido ao episódio do milagre da hóstia, Padre Cícero achou na política a maneira mais adequada de exercer sua liderança junto ao povo. Ao retratar as romarias em Juazeiro do Norte, busquei mostrar, através de imagens, o poder dessa liderança e expor a enorme influência que ele exerce na região até hoje. A questão que motivou o meu trabalho é analisar e tentar compreender as conseqüências geradas por esses interesses e que importância tiveram na construção sociopolítica da região. Acredito que considerar os múltiplos interesses de Padre Cícero como antagônicos a uma figura religiosa não dá conta de explicar a permanência da imagem do Padre Cícero junto ao povo nordestino. Penso que foram as várias ações de Padre Cícero, a sua atuação em diferentes campos, que contribuíram para a construção da sua imagem. Os múltiplos interesses de Padre Cícero podem ser um caminho para nos ajudar a compreender a complexidade das relações sociais de Juazeiro do Norte naquele momento.

6. Algumas de suas fotos, expostas na mostra “Caminhos do Santo”, revelam o sagrado e o profano atuando no mesmo espaço. Habitualmente, ensaios fotográficos trabalham estes dois aspectos de forma dual. Por que sua preferência por trabalhá-los imbricados?

Em meu ensaio fotográfico não parti de conceitos apriorísticos para entender as romarias e os romeiros, mas procurei apresentar um registro fotográfico dos eventos e das cenas do cotidiano que ocorrem durante as romarias em Juazeiro do Norte e Morro da Conceição. Não houve, da minha parte, qualquer preocupação de distinção entre o que seria sagrado ou profano. O foco do trabalho é a própria festa em si.

A partir de que critério podemos afirmar que determinada ação praticada por um devoto durante o ciclo festivo das romarias deve ser considerado algo profano? É preciso levar em consideração o fato de que, sob o ponto de vista de um romeiro, a prática do lazer durante as festividades, se não é algo sagrado, também não é profano. É apenas algo que está presente e acessível, uma distração permitida segundo seus próprios conceitos, e de certa forma, até compreensível devido ao forte caráter de confraternização presente nesses locais votivos.

7. Ao fazer o retrato da fé, suas lentes acabam por captar instituições religiosas muitas vezes disfuncionais. Seria esta também uma finalidade do seu trabalho? Se não, como explicar este fato?

Como expliquei anteriormente, a finalidade do meu trabalho foi criar um estudo comparativo entre os romeiros de duas regiões distintas e observar as diferenças e, ou, semelhanças existentes entre eles. Claro que esta observação está sujeita a inúmeras interpretações e podem nos levar a conclusões inusitadas. Nos grandes centros votivos, nada é mais marcante, determinante, presente e unânime do que as manifestações de fé. Ela é a principal motivação das peregrinações, o grande incentivo e, muitas vezes, o único alento que acompanha os devotos em sua jornada. A fé é a própria razão da existência dos festejos santos, restando à igreja o papel secundário de apenas conduzir esses festejos. As instituições religiosas se tornam disfuncionais por aceitarem essa condição de agentes secundários, se eximindo assim, de qualquer responsabilidade ou obrigação com o bem-estar dos devotos.

8. Diante de outros trabalhos referentes ao Morro da Conceição e a Juazeiro do Norte, o que ainda há a se retratar nestes dois locais?

A religiosidade é um tema que há muito tempo fascina fotógrafos, não apenas do Brasil, mas de todo o mundo. São vários os trabalhos já realizados por nomes consagrados, como Sebastião Salgado, Evandro Teixeira, Tiago Santana, Paulo Leite e tantos outros. No meu caso em particular, escolhi Juazeiro do Norte e Morro da Conceição devido ao meu estudo comparativo, mas acredito que ainda há muito estudo que pode ser desenvolvido, não apenas nesses dois centros votivos, mas em centenas de outros espalhados pelo Brasil. Cada romaria guarda sua origem, sua história e sua especificidade. Ainda temos muito a aprender sobre a cultura brasileira por meio do olhar sobre os festejos santos. Esse é um universo rico em tradições e fonte inesgotável de temas a serem retratados.

Marcelo  Feitosa | Fotógrafo autodidata, premiado em Brasília, especializado em fotos digitais, com curso de tratamento digital, ministrado pela Cia. Da Foto (SP). Autor de projetos como Cuba, exibido durante a IV Mostra Recife de Fotografia e o Festa Santa, trabalho que compõe a mostra Caminhos do santo, no Museu de Arte Popular.

O que | Caminhos do santo | Diálogos IV… imagens

Quando | 05 de Maio de 2010, quarta-feira, às 19 horas. AMANHÃ

Onde | Auditório da Livraria Cultura, Bairro do Recife

Promoção | Museu de Arte Popular – MAP

Quanto | Grátis

Informações | 3232-2803 / 3232-2969





Jamerson e o Morro

4 05 2010

Jamerson Kemps é professor da Faculdade Joaquim Nabuco. Fez sua graduação em História pela UFPE, e é Mestre em Antropologia pela mesma universidade. Esta formação é muito representativa em sua pesquisa, intitulada Nossa Senhora e o Morro da Conceição: História, Igreja e Comunidade Católica em Encontros e Desencontros, que trabalha o passado e o presente do Morro da Conceição, abençoado e observado pela grande estátua da Nossa Senhora da Conceição.

O interesse de Jamerson pela imagem da santa transcende a academia, atinge a sua identidade, como pernambucano e como religioso. Diante de um mundo plural, com transformações constantes, Jamerson observa no morro estas mudanças, enquanto também percebe as permanências na fé e nas relações humanas.

Abaixo, uma breve entrevista, concedida pelo Jamerson Kemps ao Museu de Arte Popular. Estas e outras respostas poderão ser amplamente discutidas, amanhã, às 19 horas, na Livraria Cultura, na Caminhos do santo | Diálogos IV…imagens.

1 –     De onde surgiu seu interesse pelo morro e pela estátua da Nossa Senhora da Conceição?

            Do ponto de vista científico-acadêmico, por conta das comemorações em torno do centenário da chegada da imagem da Conceição ao Morro [(1904-2004), ressalvando que o trabalho começou em 2005, quando do processo de seleção de mestrado e proveniente elaboração do projeto de pesquisa] mas também, devido a todas as circunstâncias históricas, políticas e socioculturais que envolvem a comunidade.

            Já do ponto de vista social, aproveito para parafrasear Gilberto Freyre, quando diz: ‘O recifense não está ligado às suas igrejas só por devoção aos santos, mas de um modo lírico, sentimental: porque se acostumou a voz dos sinos chamando para a missa, anunciando incêndio: porque no momento de dor ou de aperreio ele ou pessoa sua se pegou com Nossa Senhora, fez promessa, alcançou a graça; porque nas igrejas se casou, batizaram seus filhos e nestas estão enterrados avós queridos’ (Freyre, 2000:114).

2 –       Em sua pesquisa, Nossa Senhora e o Morro da Conceição: História, Igreja e Comunidade Católica em Encontros e Desencontros, você coloca a estátua da Nossa Senhora da Conceição como elemento chave na formação social e urbana da comunidade. Como se dá esta relação?

            Caso precisássemos responder de maneira concisa e direta (aos moldes do contemporâneo blog twitter), certamente, apresentaríamos tal relação a partir da constatação de uma atmosfera de tensões, disputas e arranjos em torno da imagem, originária dos diferentes pólos de vivência católica do Morro da Conceição. Para chegar a essa constatação, consideramos a existência de fatos históricos, políticos, socioreligiosos e simbólicos que terminaram por moldar a sociabilidade presente na comunidade.

            Históricos porque nos preocupamos em introduzir nossos leitores às mudanças urbanísticas pelas quais passou o morro desde a chagada da imagem de Nossa Senhora da Conceição, no ano de 1904, e que Consigo trouxe não só a propagação de Sua devoção, bem como, uma relação de controle eclesiástico sobre os fiéis por parte da Igreja Católica. Políticos e ideológicos, porque esta comunidade é um reflexo das ações desenvolvidas pela hierarquia eclesiástica que seguiu as orientações de duas correntes teológicas distintas oriundas do Concílio Vaticano II, e as colocou em prática com o trabalho de distintas lideranças em períodos distintos ao longo do último século. Considerados esses aspectos, pudemos melhor entender como a citada convivência socioreligiosa passou a se desenvolver sobre o formato de disputa entre o que classificamos como os três pólos de vivência católica, observando seus antagonismos, mas também, quais práticas socioreligiosas perpassam entre os mesmos. 

            Dessa forma, percebe-se que o primeiro pólo, praticante do Catolicismo Oficial, ver-se como agregador de outros católicos criando estratégias de persuasão sobre os membros do terceiro pólo. Contudo, depara-se com uma disputa interna por hegemonia, em que os diversos grupos que o compõe vêem-se como mais importantes que os demais e lutam pela atenção da paróquia. Diante disso, entre a disputa interna do primeiro pólo e sua tensa, porém dissimulada, disputa com o segundo pólo (apresentado na dissertação, como a Igreja de Resistência e Fé, e liderado pelo ex-pároco do Morro, Reginaldo Veloso), o terceiro pólo, caracterizado pelo Catolicismo Popular, parece se justapor aos demais, formando um dinâmico complexo de trocas simbólicas. Contudo, essa é uma prática silenciosa, não intencional, pois quando os fiéis do terceiro pólo dispensam as ações da igreja oficial, não se percebem inseridos em um cenário de confronto e disputa pela hegemonia, mas sim, por estarem dando continuidade as suas próprias práticas devocionais.  

            Aliado a estes aspectos, encontramos o simbolismo que circunda aqueles que vivem a comunidade católica estudada. Diante de tal conjuntura, preocupa-se a Igreja Católica em manter-se presente no cotidiano dos fiéis servindo-os como instrumento regulador da sua devoção religiosa, percebendo-se que esta preocupação existe desde a chegada da imagem, pois a instituição sempre procurou se fazer presente através de monumentos de destaque, como a antiga Torre e o atual complexo Santuário.

             Considerados estes fatores, passamos a refletir sobre a representação de Nossa Senhora da Conceição no imaginário de todos os seus devotos, perguntando-nos de que forma todo este processo influenciou e/ou influenciaria no aspecto de composição da sociabilidade entre os fiéis de cada pólo de devoção. Objetivamos entender se o simbolismo da representação de Nossa Senhora da Conceição, junto aos Seus fiéis católicos terminaria por agregar ou desagregar os que com Ela convivem.

            Concluímos que este simbolismo termina por promover um elemento de disputa na comunidade católica. O símbolo da Santa da Conceição termina por ‘agregar desagregando’, ou seja, sendo o centro do principal foco das atenções e devoção do Morro da Conceição, a imagem atrai e concentra seus variados fiéis, porém, disputada a exclusividade e legitimidade de Sua adoração, a Santa da Conceição termina por ver seu rebanho de católicos, paradoxalmente dividido, todavia, em uma mesma identidade católica, construindo na comunidade um estágio de vivência competitivo, em que acontecimentos do passado e do presente se confundem e influenciam um ao outro, impedindo desta maneira, a visualização de um futuro de sociabilidade religiosa com características de unificação e harmonia em tal comunidade de fiéis católicos.

3 –     O catolicismo popular possui vertentes e práticas peculiares. Diversos exemplos de práticas não reconhecidas pela igreja permanecem no seio do povo, tais como os ex-votos. Até mesmo excomungados como o Padre Cícero estão presentes na fé do povo. Diante desta “vida própria” do catolicismo popular, quais interpretações e visões da Nossa Senhora da Conceição você encontrou entre seus fiéis?

             Especificamente, àquela que a condiciona ao papel de Mãe. Diante de seu olhar complacente, o fiel católico, inevitavelmente deixa de entender que sua matriarca simboliza também a força Daquela que luta contra os agentes do mal, do pecado e/ou da injustiça. Pensada e executada minuciosamente a fim de atender à representação de seu simbolismo, a imagem de 3.50m de altura, que pesa 1.806 quilos com sua coroa de pedras, parece circundar e observar a todos, a todo instante. Ao refletir sobre a força da imagem de Nossa Senhora da Conceição no Morro, percebe-se que Ela está por todos os lados e parece estar sempre a observar todas as atitudes de seus devotos, quanto aos erros, acertos e pecados. A impressão que se tem é a de que a imagem fica à destacada distância do chão e tem sua complacente face voltada para baixo, ou seja, para a Terra, para o Morro da Conceição, para a Igreja, seus grupos e fiéis. 

4        – Que importância você atribui a religião como elemento de socialização, de consciência individual e coletiva?

 

 

             Citando Claude Lévi-Strauss (1986) e Clifford Geertz (1989), ‘a religião passa a ser a expressão da relação de distância que separa o que conhecemos do que ainda não conhecemos ou poderemos conhecer (…) uma perspectiva, uma organização cognitiva do mundo, entre outras possíveis (senso comum, ciência e estética), expressa em práticas e um conjunto de símbolos que dão sentido à existência e alivia o sofrimento’.

 

5        – Como as novas tecnologias interferiram no cenário religioso brasileiro? A queda no número de católicos, assim como o fortalecimento da Renovação Carismática tem relação direta com estas tecnologias?

 De um ponto de vista, direto, porém limitado, pode-se dizer que sim, também, mas não só por isso. Cecília Mariz (2001), por exemplo, lembra que ‘a modernidade trouxe sim, mudanças significativas no modo de viver a religião, mas também, estas transformações se desenvolveram de formas diferentes, pois, paralelo ao enfraquecimento institucional presenciado em alguns locais, também se observara novas formas institucionais de prática religiosa, e às vezes, grandes explosões de fervor religioso’. Não podemos deixar de ressalvar os efeitos causados pelos processos sociais desenvolvidos a partir das ideologias de racionalização e secularização, bem como, os atuais efeitos da globalização e pós-modernidade e sua proveniente desreferencialização sociocultural, para, a partir disso, tentarmos entender os efeitos das novas tecnologias sobre o sincrético, mas não necessariamente harmônico, campo religioso brasileiro.

Jamerson Kemps G. Moura | Mestrado em Antropologia (2008) e graduação em História (2004), pela Universidade Federal de Pernambuco, desempenhando a prática de ensino nas respectivas áreas de estudo e ciências afins. Defendeu a dissertação Nossa Senhora e o Morro da Conceição: História, Igreja e Comunidade Católica em Encontros e Desencontros, e atualmente é professor da Faculdade Joaquim Nabuco.





Caminhos do santo | Diálogos IV… imagens

3 05 2010

Seguindo nosso roteiro para 2010, chegamos ao Diálogos IV… imagens, que no dia 05 de Maio, através dos trabalhos da pesquisadora Maria Alice Amorim, do antropólogo Jamerson Kemps e do fotógrafo Marcelo Feitosa, abordaremos as relações de fé, devoção e representação envolvendo as romarias do Juazeiro do Norte, no Ceará e do Morro da Conceição, no Recife.

Maria Alice Amorim tratará da imagem construída sobre o Padre Cícero, na Literatura de Cordel(literatura à qual Maria ALice se dedica sendo uma das grandes autoridades no assunto).

Jamerson Kemps, com sua dissertação de mestrado, passará pelas relações de fé firmadas pelos devotos, igreja e imagem de Nossa Senhora da Conceição, nas festas e no cotidiano.

Entrelaçando as duas romarias, Marcelo Feitosa, com o Festa Santa, munido de imagens devocionais, ressaltando a (muitas vezes,  intrínseca) relação sagrado| profano.

O que | Caminhos do santo | Diálogos IV… imagens

Quando | 05 de Maio de 2010, quarta-feira, às 19 horas.

Onde | Auditório da Livraria Cultura, Bairro do Recife

Promoção | Museu de Arte Popular – MAP

Quanto | Grátis

Informações | 3232-2803 / 3232-2969

museudeartepopular@hotmail.com

Marcelo Couto Feitosa | Fotógrafo autodidata, premiado em Brasília, especializado em fotos digitais, com curso de tratamento digital, ministrado pela Cia. Da Foto (SP). Autor de projetos como Cuba, exibido durante a IV Mostra Recife de Fotografia e o Festa Santa, trabalho que compõe a mostra Caminhos do santo, no Museu de Arte Popular.

Jamerson Kemps G. Moura | Mestrado em Antropologia (2008) e graduação em História (2004), pela Universidade Federal de Pernambuco, desempenhando a prática de ensino nas respectivas áreas de estudo e ciências afins. Defendeu a dissertação Nossa Senhora e o Morro da Conceição: História, Igreja e Comunidade Católica em Encontros e Desencontros, e atualmente é professor da Faculdade Joaquim Nabuco.

Maria Alice Amorim | Natural de Juazeiro, Bahia, cresceu em Petrolina, Pernambuco. Vive no Recife, onde exerce o jornalismo especializado em reportagens culturais, colaborando em revistas e suplementos, e realizando conferências. Dedica especial atenção à poesia popular, à arte figurativa e aos folguedos populares. Da fusão desses temas surgiu o livro Carnaval – cortejos e improvisos (2002), em co-autoria com o pesquisador Roberto Benjamin. Publicou, em 2003, ensaio sobre arte popular na obra Pernambuco: cinco décadas de arte. É autora do ensaio Improviso: tradição poética da oralidade, que integra o livro Literatura e Música, co-edição do Itaú Cultural e editora Senac. Com pesquisa sobre as poéticas tradicionais do Nordeste brasileiro, defendeu dissertação de mestrado em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) –  “No visgo do improviso ou A peleja virtual entre cibercultura e tradição” – , que saiu em 2009 pela Educ (PUC-SP).

Coordenação de Mesa

Fábio Carvalho |  História, UFPE.

Realização | Museu de Arte Popular

Apoio | Livraria Cultura