Para além do arco-íris

31 03 2010

Entre os convidados que irão compor a mesa de debate do dia 07 de Abril na livraria Cultura, contaremos com a presença da pesquisadora, Rúbia Lóssio, Mestre em Comunicação e Coordenadora do Núcleo de Estudos Folclóricos Mário Souto Maior da Diretoria de Pesquisas Sociais da Fundação Joaquim Nabuco.

Possuidora de uma personalidade terna e serena, Rúbia encantou-se desde muito cedo pelo simples e pelo belo. Apreciadora da natureza, emociona-se com as nebulosas nuvens do Recife, que se anunciam nos primeiros pingos de chuva e considera sagrado o entardecer.

Das cores reluzentes do arco-íris e dos passos frenéticos do frevo, duas de suas grandes paixões, esta recifense retirou o gosto pela variedade e o popular. Ainda na graduação escolheu estudar a fala do povo e por que não dizer a fala de um povo. Nos caminhos da folkcomunicação, encontrou as recriações dos populares sobre os discursos midiáticos, e, como acontece nas melhores fábulas, adentrou em mundo de mistério, encanto e magia. Rúbia descobriu as lendas e os contos e deste mundo resolveu não mais sair.

Confira abaixo, a entrevista concedida por Rúbia ao MAP, e, quem sabe, encontres também um portal para o “admirável mundo novo” da oralidade popular. 

  1. 1.   Como você definiria a Folkcomunicação?

A folkcomunicação é o uso que o povo faz em seu cotidiano das mensagens que recebe das mídias. Desse modo o povo, cria maneiras de interpretar o que ver, ouve ou ler através da linguagem, artesanato, danças, músicas entre outros. Como exemplo tempos o artesão Miro Bonequeiro do município de Carpina/PE que criou o mamulengo chamado Foguinho. Na época Foguinho era um personagem de uma novela feito pelo ator Lázaro Ramos e que tinha como características o bigode pintado de louro. Encontramos exemplos da folkcomunicação no cotidiano das culturas populares.   

  1. 2.   Quais os comentários você poderia fazer a respeito da relação entre cultura popular e cultura de massa?

Cultura popular envolve os símbolos que o povo usa pra sobrevier e organizar-se. Daí a cultura popular possuir como características tradição, ritual, anonimato, resistência, ambivalência, necessidades, funcionalidade e dinâmica. A cultura popular tem também como forte a questão da espontaneidade. Já a cultura de massa, é movida pelas regras do mercado e do consumo. É atraída pela dinâmica das inovações tecnológicas. A cultura de massa expressa uma insatisfação constante em seu cotidiano em busca do novo. Há quem fale também, que exista a cultura popular de massa. A cultura popular de massa pode ser vista nas culturas periféricas, entre aculturação e hibridização destacam-se maneiras de sobrevivência entre consumo e tradição.

  1. 3.   Segundo a Internacional Society for Folk-narrative, as lendas classificam-se em etiológicas e escatológicas, históricas e histórico-culturais e lendas míticas. Assim, seria correto afirmar que há predominância de lendas de estrutura mítica no interior do nordeste? Se sim, como explicar esse fato?

Os mitos prevalecem em sua totalidade no interior de Pernambuco, porém como diz Câmara Cascudo, as lendas se confundem com os mitos e por sua vez, os mitos se confundem com as lendas. As lendas surgem da riqueza do imaginário popular diante de algum acontecimento, embora muitas lendas tenham sido criadas para manutenção da “ordem social”, prevalecendo os mitos e as lendas que dão alma ao lugar. Para uma mãe criar seu doze filhos, por exemplo, em um sítio afastado da cidade, ela utilizava o medo para manter a ordem dentro de casa. Assim, como afirma Campbell, “esperança e terror dão coesão à sociedade.” Cada história, segundo Jaques Le Goff, “foi contada ao seu modo, a história está apenas começando”.

  1. 4.   Quais comentários poderiam ser feitos sobre a atuação de “plano de fundo” do mito do papa-figo na lenda urbana do palhaço que rouba crianças?

O papa-figo é um mito que sobrevive em tempos de tecnologia da informação. Como diz Cascudo algumas lendas e mitos ficam hibernando, esperando uma oportunidade para aparecerem novamente com outras dimensões. O papa-figo, por exemplo, está globalizado, o velho se disfarça de palhaço para atrair bem mais crianças e o fígado não o único órgão atrativo para o palhaço. Também há um contexto mercadológico. Há com tudo uma refuncionalização no mito do papa-figo.

  1. 5.   Segundo Câmara Cascudo alguns mitos, a exemplo do papa-fígo, nunca desaparecem, mas permanecem em estado de latência, dentro desta concepção quais os fatores que influenciam o reaparecimento de um mito?

Como havia falado anteriormente, o papa-figo reaparece em momentos de crise, de aflição e desespero. Aparece diante de uma oportunidade relacionada a noticias das mídias, crimes e acontecimentos do cotidiano em alguns lugares. Diante disso há uma mobilidade que é traduzida na dinâmica das culturas populares em ciclo que vai desde aparecer, parecer para depois desaparecer. Ou seja, como diz Hannah Arendt, “Não há dois mundos, pois a metáfora os une”.

  1. 6.   Quais os comentários podem ser feitos sobre o caso da “Menina Sem Nome” dentro da linha teórica da folkcomunicação?

A “Menina Sem Nome” foi considerada pelo povo como um anjo, já que o desfecho de sua história foi trágico. O seu túmulo atrai curiosos e devotos. Desse modo a “Menina Sem Nome” passou a ser uma santa-não-canônica devido aos pedidos feitos pelo povo em seu túmulo. Nesse contexto, sob a luz da folkcomunicação os devotos pedem casas, celulares, casamentos, reconciliação amorosa, entre outros. A “Menina sem Nome” pode ser considerada uma “Santa” que consegue atrair uma variedade de fiéis. Em seu túmulo há uma variedade de objetos, feitos como maquetes de papel, para realização de pedidos como, bicicleta, geladeira, carro. Assim, há uma criatividade na forma como o povo faz sua devoção.

  1. 7.   Como as novas tecnologias influenciam as elaborações, ressignificações e transmissão dos mitos?Teriam esses perdido suas capacidades comunicativas diante de um mundo informatizado e digitalizado?

Acreditamos que as narrativas sejam influenciadas pela mídia. A mídia por sua vez é um holograma de códigos do cotidiano. Nesse sentido o mundo é codificado. Vivemos entre o material, o formal e o tempo. Há de se considerar que exista outra forma de observar as narrativas populares. O mundo informatizado e digitalizado é acelerado por novos códigos. Nesse sentido, o povo cria maneiras para organizar-se.

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A ‘guerra’ dos mundos

26 03 2010

Muito se tem falado dos atuais conflitos religiosos, étnicos e culturais que surpreende-nos dia após dia nos principais jornais do país e do mundo. Pouco se tem ouvido das mediações possíveis entre países, pessoas e povos que não se entendem. Talvez a ausência de personagens que promovam a paz e a compreensão der-se por uma dificuldade do mundo globalizado em perceber outros discursos e concepção de vida em meio a uma sociedade cada vez mais massificada. Em direção contrária às políticas e ações unilaterais, temos uma série de instituições que procuram um caminho de idas e vindas, construções e desconstruções e os espaços museais não poderiam se furtar a trilhar estradas que possibilitem a várias tribos compreenderem e moldarem discursos apresentados nas exposições destes espaços físicos e sociais. Abaixo temos um texto-depoimento de Alesson Góis, o simpático estagiário do Museu de Arte Popular, esta instituição que ganha voz junto aos seus amigos e admiradores. Nele você fica sabendo um pouco dos desafios enfrentados por mediadores que podem e devem servir de lição a tanta “gente grande” por aí. Divirtam-se!!!!

As dificuldades da mediação

Cada indivíduo possui uma maneira de perceber a si mesmo e o mundo que o rodeia. As leituras e interpretações feitas sobre elas são as mais variadas possíveis baseando-se no contexto sociocultural em que o indivíduo esteja inserido. Esses infinitos “mundos” particulares, cada um com seu sistema organizacional próprio, é o que torna a condição humana ainda mais instigante.

Por vivermos em sociedade, esses “mundos” acabam, por sua vez, se entrecruzando. Neste momento, é comum ocorrer divergências na comunicação e, por isso, se faz necessário a avaliação e a reorganização da fala a fim de se tornar compreendido.

Dentro de um museu não acontece diferente. Para cada visitante que entra nesse espaço é necessário ser revisto o discurso de mediação devido às singularidades de percepção. Fatores como a faixa etária, a realidade social do visitante, o nível de escolaridade entre outros aspectos são motivos que levam a essa reestruturação da mediação.

Como mencionado, o objetivo de qualquer indivíduo que dialoga é ser compreendido, sendo assim, o mediador em um espaço museológico deve estar atento a essas questões, pois elas refletem diretamente na interação que o visitante terá com a exposição, como também, na própria satisfação da visita tanto pela questão da aquisição de conhecimento como até mesmo na divulgação do espaço para seus amigos e familiares.

Portanto, cabe ao museu e sua equipe estar em constante busca por estratégias de mediação que supram as necessidades de cada público visitante, procurando estabelecer uma linguagem nítida e coerente.

Alesson Góis