Jamerson e o Morro

4 05 2010

Jamerson Kemps é professor da Faculdade Joaquim Nabuco. Fez sua graduação em História pela UFPE, e é Mestre em Antropologia pela mesma universidade. Esta formação é muito representativa em sua pesquisa, intitulada Nossa Senhora e o Morro da Conceição: História, Igreja e Comunidade Católica em Encontros e Desencontros, que trabalha o passado e o presente do Morro da Conceição, abençoado e observado pela grande estátua da Nossa Senhora da Conceição.

O interesse de Jamerson pela imagem da santa transcende a academia, atinge a sua identidade, como pernambucano e como religioso. Diante de um mundo plural, com transformações constantes, Jamerson observa no morro estas mudanças, enquanto também percebe as permanências na fé e nas relações humanas.

Abaixo, uma breve entrevista, concedida pelo Jamerson Kemps ao Museu de Arte Popular. Estas e outras respostas poderão ser amplamente discutidas, amanhã, às 19 horas, na Livraria Cultura, na Caminhos do santo | Diálogos IV…imagens.

1 –     De onde surgiu seu interesse pelo morro e pela estátua da Nossa Senhora da Conceição?

            Do ponto de vista científico-acadêmico, por conta das comemorações em torno do centenário da chegada da imagem da Conceição ao Morro [(1904-2004), ressalvando que o trabalho começou em 2005, quando do processo de seleção de mestrado e proveniente elaboração do projeto de pesquisa] mas também, devido a todas as circunstâncias históricas, políticas e socioculturais que envolvem a comunidade.

            Já do ponto de vista social, aproveito para parafrasear Gilberto Freyre, quando diz: ‘O recifense não está ligado às suas igrejas só por devoção aos santos, mas de um modo lírico, sentimental: porque se acostumou a voz dos sinos chamando para a missa, anunciando incêndio: porque no momento de dor ou de aperreio ele ou pessoa sua se pegou com Nossa Senhora, fez promessa, alcançou a graça; porque nas igrejas se casou, batizaram seus filhos e nestas estão enterrados avós queridos’ (Freyre, 2000:114).

2 –       Em sua pesquisa, Nossa Senhora e o Morro da Conceição: História, Igreja e Comunidade Católica em Encontros e Desencontros, você coloca a estátua da Nossa Senhora da Conceição como elemento chave na formação social e urbana da comunidade. Como se dá esta relação?

            Caso precisássemos responder de maneira concisa e direta (aos moldes do contemporâneo blog twitter), certamente, apresentaríamos tal relação a partir da constatação de uma atmosfera de tensões, disputas e arranjos em torno da imagem, originária dos diferentes pólos de vivência católica do Morro da Conceição. Para chegar a essa constatação, consideramos a existência de fatos históricos, políticos, socioreligiosos e simbólicos que terminaram por moldar a sociabilidade presente na comunidade.

            Históricos porque nos preocupamos em introduzir nossos leitores às mudanças urbanísticas pelas quais passou o morro desde a chagada da imagem de Nossa Senhora da Conceição, no ano de 1904, e que Consigo trouxe não só a propagação de Sua devoção, bem como, uma relação de controle eclesiástico sobre os fiéis por parte da Igreja Católica. Políticos e ideológicos, porque esta comunidade é um reflexo das ações desenvolvidas pela hierarquia eclesiástica que seguiu as orientações de duas correntes teológicas distintas oriundas do Concílio Vaticano II, e as colocou em prática com o trabalho de distintas lideranças em períodos distintos ao longo do último século. Considerados esses aspectos, pudemos melhor entender como a citada convivência socioreligiosa passou a se desenvolver sobre o formato de disputa entre o que classificamos como os três pólos de vivência católica, observando seus antagonismos, mas também, quais práticas socioreligiosas perpassam entre os mesmos. 

            Dessa forma, percebe-se que o primeiro pólo, praticante do Catolicismo Oficial, ver-se como agregador de outros católicos criando estratégias de persuasão sobre os membros do terceiro pólo. Contudo, depara-se com uma disputa interna por hegemonia, em que os diversos grupos que o compõe vêem-se como mais importantes que os demais e lutam pela atenção da paróquia. Diante disso, entre a disputa interna do primeiro pólo e sua tensa, porém dissimulada, disputa com o segundo pólo (apresentado na dissertação, como a Igreja de Resistência e Fé, e liderado pelo ex-pároco do Morro, Reginaldo Veloso), o terceiro pólo, caracterizado pelo Catolicismo Popular, parece se justapor aos demais, formando um dinâmico complexo de trocas simbólicas. Contudo, essa é uma prática silenciosa, não intencional, pois quando os fiéis do terceiro pólo dispensam as ações da igreja oficial, não se percebem inseridos em um cenário de confronto e disputa pela hegemonia, mas sim, por estarem dando continuidade as suas próprias práticas devocionais.  

            Aliado a estes aspectos, encontramos o simbolismo que circunda aqueles que vivem a comunidade católica estudada. Diante de tal conjuntura, preocupa-se a Igreja Católica em manter-se presente no cotidiano dos fiéis servindo-os como instrumento regulador da sua devoção religiosa, percebendo-se que esta preocupação existe desde a chegada da imagem, pois a instituição sempre procurou se fazer presente através de monumentos de destaque, como a antiga Torre e o atual complexo Santuário.

             Considerados estes fatores, passamos a refletir sobre a representação de Nossa Senhora da Conceição no imaginário de todos os seus devotos, perguntando-nos de que forma todo este processo influenciou e/ou influenciaria no aspecto de composição da sociabilidade entre os fiéis de cada pólo de devoção. Objetivamos entender se o simbolismo da representação de Nossa Senhora da Conceição, junto aos Seus fiéis católicos terminaria por agregar ou desagregar os que com Ela convivem.

            Concluímos que este simbolismo termina por promover um elemento de disputa na comunidade católica. O símbolo da Santa da Conceição termina por ‘agregar desagregando’, ou seja, sendo o centro do principal foco das atenções e devoção do Morro da Conceição, a imagem atrai e concentra seus variados fiéis, porém, disputada a exclusividade e legitimidade de Sua adoração, a Santa da Conceição termina por ver seu rebanho de católicos, paradoxalmente dividido, todavia, em uma mesma identidade católica, construindo na comunidade um estágio de vivência competitivo, em que acontecimentos do passado e do presente se confundem e influenciam um ao outro, impedindo desta maneira, a visualização de um futuro de sociabilidade religiosa com características de unificação e harmonia em tal comunidade de fiéis católicos.

3 –     O catolicismo popular possui vertentes e práticas peculiares. Diversos exemplos de práticas não reconhecidas pela igreja permanecem no seio do povo, tais como os ex-votos. Até mesmo excomungados como o Padre Cícero estão presentes na fé do povo. Diante desta “vida própria” do catolicismo popular, quais interpretações e visões da Nossa Senhora da Conceição você encontrou entre seus fiéis?

             Especificamente, àquela que a condiciona ao papel de Mãe. Diante de seu olhar complacente, o fiel católico, inevitavelmente deixa de entender que sua matriarca simboliza também a força Daquela que luta contra os agentes do mal, do pecado e/ou da injustiça. Pensada e executada minuciosamente a fim de atender à representação de seu simbolismo, a imagem de 3.50m de altura, que pesa 1.806 quilos com sua coroa de pedras, parece circundar e observar a todos, a todo instante. Ao refletir sobre a força da imagem de Nossa Senhora da Conceição no Morro, percebe-se que Ela está por todos os lados e parece estar sempre a observar todas as atitudes de seus devotos, quanto aos erros, acertos e pecados. A impressão que se tem é a de que a imagem fica à destacada distância do chão e tem sua complacente face voltada para baixo, ou seja, para a Terra, para o Morro da Conceição, para a Igreja, seus grupos e fiéis. 

4        – Que importância você atribui a religião como elemento de socialização, de consciência individual e coletiva?

 

 

             Citando Claude Lévi-Strauss (1986) e Clifford Geertz (1989), ‘a religião passa a ser a expressão da relação de distância que separa o que conhecemos do que ainda não conhecemos ou poderemos conhecer (…) uma perspectiva, uma organização cognitiva do mundo, entre outras possíveis (senso comum, ciência e estética), expressa em práticas e um conjunto de símbolos que dão sentido à existência e alivia o sofrimento’.

 

5        – Como as novas tecnologias interferiram no cenário religioso brasileiro? A queda no número de católicos, assim como o fortalecimento da Renovação Carismática tem relação direta com estas tecnologias?

 De um ponto de vista, direto, porém limitado, pode-se dizer que sim, também, mas não só por isso. Cecília Mariz (2001), por exemplo, lembra que ‘a modernidade trouxe sim, mudanças significativas no modo de viver a religião, mas também, estas transformações se desenvolveram de formas diferentes, pois, paralelo ao enfraquecimento institucional presenciado em alguns locais, também se observara novas formas institucionais de prática religiosa, e às vezes, grandes explosões de fervor religioso’. Não podemos deixar de ressalvar os efeitos causados pelos processos sociais desenvolvidos a partir das ideologias de racionalização e secularização, bem como, os atuais efeitos da globalização e pós-modernidade e sua proveniente desreferencialização sociocultural, para, a partir disso, tentarmos entender os efeitos das novas tecnologias sobre o sincrético, mas não necessariamente harmônico, campo religioso brasileiro.

Jamerson Kemps G. Moura | Mestrado em Antropologia (2008) e graduação em História (2004), pela Universidade Federal de Pernambuco, desempenhando a prática de ensino nas respectivas áreas de estudo e ciências afins. Defendeu a dissertação Nossa Senhora e o Morro da Conceição: História, Igreja e Comunidade Católica em Encontros e Desencontros, e atualmente é professor da Faculdade Joaquim Nabuco.

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Caminhos do santo | Diálogos IV… imagens

3 05 2010

Seguindo nosso roteiro para 2010, chegamos ao Diálogos IV… imagens, que no dia 05 de Maio, através dos trabalhos da pesquisadora Maria Alice Amorim, do antropólogo Jamerson Kemps e do fotógrafo Marcelo Feitosa, abordaremos as relações de fé, devoção e representação envolvendo as romarias do Juazeiro do Norte, no Ceará e do Morro da Conceição, no Recife.

Maria Alice Amorim tratará da imagem construída sobre o Padre Cícero, na Literatura de Cordel(literatura à qual Maria ALice se dedica sendo uma das grandes autoridades no assunto).

Jamerson Kemps, com sua dissertação de mestrado, passará pelas relações de fé firmadas pelos devotos, igreja e imagem de Nossa Senhora da Conceição, nas festas e no cotidiano.

Entrelaçando as duas romarias, Marcelo Feitosa, com o Festa Santa, munido de imagens devocionais, ressaltando a (muitas vezes,  intrínseca) relação sagrado| profano.

O que | Caminhos do santo | Diálogos IV… imagens

Quando | 05 de Maio de 2010, quarta-feira, às 19 horas.

Onde | Auditório da Livraria Cultura, Bairro do Recife

Promoção | Museu de Arte Popular – MAP

Quanto | Grátis

Informações | 3232-2803 / 3232-2969

museudeartepopular@hotmail.com

Marcelo Couto Feitosa | Fotógrafo autodidata, premiado em Brasília, especializado em fotos digitais, com curso de tratamento digital, ministrado pela Cia. Da Foto (SP). Autor de projetos como Cuba, exibido durante a IV Mostra Recife de Fotografia e o Festa Santa, trabalho que compõe a mostra Caminhos do santo, no Museu de Arte Popular.

Jamerson Kemps G. Moura | Mestrado em Antropologia (2008) e graduação em História (2004), pela Universidade Federal de Pernambuco, desempenhando a prática de ensino nas respectivas áreas de estudo e ciências afins. Defendeu a dissertação Nossa Senhora e o Morro da Conceição: História, Igreja e Comunidade Católica em Encontros e Desencontros, e atualmente é professor da Faculdade Joaquim Nabuco.

Maria Alice Amorim | Natural de Juazeiro, Bahia, cresceu em Petrolina, Pernambuco. Vive no Recife, onde exerce o jornalismo especializado em reportagens culturais, colaborando em revistas e suplementos, e realizando conferências. Dedica especial atenção à poesia popular, à arte figurativa e aos folguedos populares. Da fusão desses temas surgiu o livro Carnaval – cortejos e improvisos (2002), em co-autoria com o pesquisador Roberto Benjamin. Publicou, em 2003, ensaio sobre arte popular na obra Pernambuco: cinco décadas de arte. É autora do ensaio Improviso: tradição poética da oralidade, que integra o livro Literatura e Música, co-edição do Itaú Cultural e editora Senac. Com pesquisa sobre as poéticas tradicionais do Nordeste brasileiro, defendeu dissertação de mestrado em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) –  “No visgo do improviso ou A peleja virtual entre cibercultura e tradição” – , que saiu em 2009 pela Educ (PUC-SP).

Coordenação de Mesa

Fábio Carvalho |  História, UFPE.

Realização | Museu de Arte Popular

Apoio | Livraria Cultura