Uma fotografia do Marcelo

4 05 2010

Marcelo Feitosa é carioca. Pernambucano por parte de mãe, aprendeu cedo o sabor e o calor da cidade do Recife, e por aqui resolveu ficar. Multifacetado e cosmopolita se abriga em duas profissões, ora preocupa-se com sua microempresa, ora se deleita em seus ensaios fotográficos, ainda dividindo-se entre Recife e Curitiba, terra de sua namorada. Fotógrafo autodidata com especialização em fotografia digital, enveredou pelo caminho de cristalizar momentos em fotos artísticas e documentais, tendo assim, participado e ganhado vários prêmios na área. Em seu mais recente trabalho, “Festa Santa”, este fotógrafo que descobre Recife e agora Recife o descobre, presenteia a todos com um paralelo entre dois locais votivos (Juazeiro do Norte – CE e Morro da Conceição – PE), fazendo -com isso- um retrato da fé e dos aspectos comportamentais dos romeiros de ambos os locais de peregrinação. Sua preferência por uma estética de imagem em preto e branco, torna seus clicks atemporais e desafia a cronologia dos próprios fatos retratados, além de possibilitar uma observação serena e tranqüila, que abre caminhos para olhares e interpretações múltiplas. Como pequenos ensaios dentro de uma grande imagem, suas fotos são ricas e parecem correr para um infinito de sensações, histórias e experiências.

Confira abaixo a entrevista deste grande profissional, que tem seu trabalho(Festa Santa) exposto na atual exposição do MAP “ Caminhos do santo”. Você está esperando o quê para conferir?

ENTREVISTA

1. Por que o interesse em trabalhar a religiosidade popular?

Procissões e romarias guardam nossas origens cristãs. Os portugueses devotos, nossos colonizadores, interessados na difusão da fé, nos legaram um calendário repleto de datas santas. A religiosidade é uma herança cultural fortemente presente no cotidiano do povo brasileiro, principalmente do povo nordestino. Meu interesse com esse trabalho foi buscar a compreensão de como essa herança influencia a vida desse povo e como ela é determinante na caracterização dos hábitos e costumes, não apenas do sertanejo, mas de todo o povo nordestino.

2. Qual a estética utilizada em seu trabalho?

Optei por realizar as fotografias em preto & branco por achar que seria a melhor maneira de retratar a dramaticidade das imagens. Além disso, resolvi “envelhecer” as fotos usando um tom amarelado durante o processo de edição. Minha intenção é passar a idéia de atemporalidade das cenas.

3. Há no Nordeste um grande número de locais votivos. Por que a preferência por trabalhar Juazeiro do Norte e Morro da Conceição?

Festa Santa é um estudo comparativo. Escolhi esses locais por estarem em regiões distintas e serem antagônicos. Juazeiro do Norte fica no sertão cearense, o que caracteriza uma romaria rural; já o  Morro da Conceição fica na região metropolitana da cidade do Recife, caracterizando uma romaria urbana. A proposta do projeto é fazer uma análise comportamental dos devotos nas duas romarias e observar as diferenças e, ou, semelhanças existentes entre elas.

4. Seu trabalho parece configurar um retrato da fé de dois locais votivos que ora dialogam e ora se repelem. Nesta concepção, quais seriam os aspectos de semelhança e também os de singularidade entre Juazeiro e o Morro?

Meu trabalho consiste em lançar um olhar sobre tudo o que acontece nas romarias desses dois grandes centros votivos, buscando compreender, não só a fé, mas também a relação de interação entre romeiro e romaria. Devemos pensar em romaria como sendo um grande evento festivo. A fé que motiva os peregrinos em suas devoções é a mesma que os faz transformar a romaria em um momento de lazer. Quanto às semelhanças e diferenças entre Juazeiro e o Morro da Conceição, fica claro que os símbolos de devoção são praticamente os mesmos nas duas regiões, com cenas de pagamento de promessas, devoção, filantropia e orações sendo uma constante nos dois locais. A principal diferença entre as duas festas é o aspecto comportamental dos devotos: enquanto em Juazeiro os fiéis geralmente cumprem todo o calendário festivo, em peregrinações que duram dias, no Morro da Conceição os devotos limitam-se, geralmente, a pagar suas promessas e fazerem suas orações, numa única visita ao local de devoção.

5. As pesquisas referentes ao Padre Cícero revelam um homem de múltiplos interesses e muitos deles não correspondentes a uma figura religiosa. Através de suas pesquisas, como você percebe e retrata a figura deste mito nordestino?

Baseado em minhas pesquisas, entendo a figura do Padre Cícero como sendo a de um homem profundamente comprometido com questões sociais, além das religiosas. Proibido de exercer suas funções sacerdotais devido ao episódio do milagre da hóstia, Padre Cícero achou na política a maneira mais adequada de exercer sua liderança junto ao povo. Ao retratar as romarias em Juazeiro do Norte, busquei mostrar, através de imagens, o poder dessa liderança e expor a enorme influência que ele exerce na região até hoje. A questão que motivou o meu trabalho é analisar e tentar compreender as conseqüências geradas por esses interesses e que importância tiveram na construção sociopolítica da região. Acredito que considerar os múltiplos interesses de Padre Cícero como antagônicos a uma figura religiosa não dá conta de explicar a permanência da imagem do Padre Cícero junto ao povo nordestino. Penso que foram as várias ações de Padre Cícero, a sua atuação em diferentes campos, que contribuíram para a construção da sua imagem. Os múltiplos interesses de Padre Cícero podem ser um caminho para nos ajudar a compreender a complexidade das relações sociais de Juazeiro do Norte naquele momento.

6. Algumas de suas fotos, expostas na mostra “Caminhos do Santo”, revelam o sagrado e o profano atuando no mesmo espaço. Habitualmente, ensaios fotográficos trabalham estes dois aspectos de forma dual. Por que sua preferência por trabalhá-los imbricados?

Em meu ensaio fotográfico não parti de conceitos apriorísticos para entender as romarias e os romeiros, mas procurei apresentar um registro fotográfico dos eventos e das cenas do cotidiano que ocorrem durante as romarias em Juazeiro do Norte e Morro da Conceição. Não houve, da minha parte, qualquer preocupação de distinção entre o que seria sagrado ou profano. O foco do trabalho é a própria festa em si.

A partir de que critério podemos afirmar que determinada ação praticada por um devoto durante o ciclo festivo das romarias deve ser considerado algo profano? É preciso levar em consideração o fato de que, sob o ponto de vista de um romeiro, a prática do lazer durante as festividades, se não é algo sagrado, também não é profano. É apenas algo que está presente e acessível, uma distração permitida segundo seus próprios conceitos, e de certa forma, até compreensível devido ao forte caráter de confraternização presente nesses locais votivos.

7. Ao fazer o retrato da fé, suas lentes acabam por captar instituições religiosas muitas vezes disfuncionais. Seria esta também uma finalidade do seu trabalho? Se não, como explicar este fato?

Como expliquei anteriormente, a finalidade do meu trabalho foi criar um estudo comparativo entre os romeiros de duas regiões distintas e observar as diferenças e, ou, semelhanças existentes entre eles. Claro que esta observação está sujeita a inúmeras interpretações e podem nos levar a conclusões inusitadas. Nos grandes centros votivos, nada é mais marcante, determinante, presente e unânime do que as manifestações de fé. Ela é a principal motivação das peregrinações, o grande incentivo e, muitas vezes, o único alento que acompanha os devotos em sua jornada. A fé é a própria razão da existência dos festejos santos, restando à igreja o papel secundário de apenas conduzir esses festejos. As instituições religiosas se tornam disfuncionais por aceitarem essa condição de agentes secundários, se eximindo assim, de qualquer responsabilidade ou obrigação com o bem-estar dos devotos.

8. Diante de outros trabalhos referentes ao Morro da Conceição e a Juazeiro do Norte, o que ainda há a se retratar nestes dois locais?

A religiosidade é um tema que há muito tempo fascina fotógrafos, não apenas do Brasil, mas de todo o mundo. São vários os trabalhos já realizados por nomes consagrados, como Sebastião Salgado, Evandro Teixeira, Tiago Santana, Paulo Leite e tantos outros. No meu caso em particular, escolhi Juazeiro do Norte e Morro da Conceição devido ao meu estudo comparativo, mas acredito que ainda há muito estudo que pode ser desenvolvido, não apenas nesses dois centros votivos, mas em centenas de outros espalhados pelo Brasil. Cada romaria guarda sua origem, sua história e sua especificidade. Ainda temos muito a aprender sobre a cultura brasileira por meio do olhar sobre os festejos santos. Esse é um universo rico em tradições e fonte inesgotável de temas a serem retratados.

Marcelo  Feitosa | Fotógrafo autodidata, premiado em Brasília, especializado em fotos digitais, com curso de tratamento digital, ministrado pela Cia. Da Foto (SP). Autor de projetos como Cuba, exibido durante a IV Mostra Recife de Fotografia e o Festa Santa, trabalho que compõe a mostra Caminhos do santo, no Museu de Arte Popular.

O que | Caminhos do santo | Diálogos IV… imagens

Quando | 05 de Maio de 2010, quarta-feira, às 19 horas. AMANHÃ

Onde | Auditório da Livraria Cultura, Bairro do Recife

Promoção | Museu de Arte Popular – MAP

Quanto | Grátis

Informações | 3232-2803 / 3232-2969

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Caminhos do santo | Diálogos IV… imagens

3 05 2010

Seguindo nosso roteiro para 2010, chegamos ao Diálogos IV… imagens, que no dia 05 de Maio, através dos trabalhos da pesquisadora Maria Alice Amorim, do antropólogo Jamerson Kemps e do fotógrafo Marcelo Feitosa, abordaremos as relações de fé, devoção e representação envolvendo as romarias do Juazeiro do Norte, no Ceará e do Morro da Conceição, no Recife.

Maria Alice Amorim tratará da imagem construída sobre o Padre Cícero, na Literatura de Cordel(literatura à qual Maria ALice se dedica sendo uma das grandes autoridades no assunto).

Jamerson Kemps, com sua dissertação de mestrado, passará pelas relações de fé firmadas pelos devotos, igreja e imagem de Nossa Senhora da Conceição, nas festas e no cotidiano.

Entrelaçando as duas romarias, Marcelo Feitosa, com o Festa Santa, munido de imagens devocionais, ressaltando a (muitas vezes,  intrínseca) relação sagrado| profano.

O que | Caminhos do santo | Diálogos IV… imagens

Quando | 05 de Maio de 2010, quarta-feira, às 19 horas.

Onde | Auditório da Livraria Cultura, Bairro do Recife

Promoção | Museu de Arte Popular – MAP

Quanto | Grátis

Informações | 3232-2803 / 3232-2969

museudeartepopular@hotmail.com

Marcelo Couto Feitosa | Fotógrafo autodidata, premiado em Brasília, especializado em fotos digitais, com curso de tratamento digital, ministrado pela Cia. Da Foto (SP). Autor de projetos como Cuba, exibido durante a IV Mostra Recife de Fotografia e o Festa Santa, trabalho que compõe a mostra Caminhos do santo, no Museu de Arte Popular.

Jamerson Kemps G. Moura | Mestrado em Antropologia (2008) e graduação em História (2004), pela Universidade Federal de Pernambuco, desempenhando a prática de ensino nas respectivas áreas de estudo e ciências afins. Defendeu a dissertação Nossa Senhora e o Morro da Conceição: História, Igreja e Comunidade Católica em Encontros e Desencontros, e atualmente é professor da Faculdade Joaquim Nabuco.

Maria Alice Amorim | Natural de Juazeiro, Bahia, cresceu em Petrolina, Pernambuco. Vive no Recife, onde exerce o jornalismo especializado em reportagens culturais, colaborando em revistas e suplementos, e realizando conferências. Dedica especial atenção à poesia popular, à arte figurativa e aos folguedos populares. Da fusão desses temas surgiu o livro Carnaval – cortejos e improvisos (2002), em co-autoria com o pesquisador Roberto Benjamin. Publicou, em 2003, ensaio sobre arte popular na obra Pernambuco: cinco décadas de arte. É autora do ensaio Improviso: tradição poética da oralidade, que integra o livro Literatura e Música, co-edição do Itaú Cultural e editora Senac. Com pesquisa sobre as poéticas tradicionais do Nordeste brasileiro, defendeu dissertação de mestrado em Comunicação e Semiótica (PUC-SP) –  “No visgo do improviso ou A peleja virtual entre cibercultura e tradição” – , que saiu em 2009 pela Educ (PUC-SP).

Coordenação de Mesa

Fábio Carvalho |  História, UFPE.

Realização | Museu de Arte Popular

Apoio | Livraria Cultura